Liderança exige equilíbrio, emoção e consciência.
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Entrevista com Robson Santarém, consultor, que lançou recentemente o livro “(Auto)liderança – Uma Jornada Espiritual”, Editora Senac Rio.
A capacidade do ser humano de se relacionar com seus semelhantes sempre foi e continuará sendo alvo de muitos estudos. Essa realidade casa como uma luva com o cotidiano das organizações, afinal as empresas são formadas em toda sua essência por pessoas e cada uma dessas, por sua vez, possui as mais diversas vivências, sendo detentoras de opiniões individuais, muitas vezes, enraizadas no inconsciente. Diante disso, surge uma pergunta sempre polêmica no meio organizacional: quem está apto para liderar mentes capazes de pensar por si próprias?
RH.COM.BR - É comum encontramos executivos que não conseguem conciliar a carreira com a vida pessoal, em decorrência das responsabilidades assumidas no meio organizacional. Que reflexos isso traz para essas pessoas?
Robson Santarém - Penso que esta não conciliação entre carreira e vida pessoal não decorre das responsabilidades assumidas no meio organizacional, mas da visão ou do paradigma equivocado que fez com que muitos ainda acreditem que se deve separar a vida pessoal da vida profissional. Muitos acreditam que é possível investir no sucesso profissional, ganhar dinheiro, buscar o status e deixar de lado a vida pessoal, referindo-se às relações de amizade e familiares principalmente. Em nome do sucesso abre-se mão da felicidade. Do mesmo modo alguns acreditam que é possível trabalhar em uma área ou uma organização que não proporciona realização e felicidade, mas que em algum momento da vida vai desfrutar.
RH - Se os gestores não encontram esse ponto de equilíbrio desejado e que garanta a qualidade de vida, que conseqüências surgem para o clima organizacional?
Robson Santarém - Pessoas felizes, realizadas, irradiam felicidade, criam ambiente que proporciona bem-estar para todos e trabalharão para que as pessoas com quem convivam também sejam felizes, se desenvolvam e se realizem como pessoas, o que inclui a dimensão profissional. O contrário também é verdadeiro, isto é, pessoas infelizes, que não vêem sentido no que fazem - e muitas vezes na própria vida, estão em desequilíbrio interior, provocarão também desequilíbrio exterior. Não raro nos deparamos com pessoas desmotivadas, ambiente de trabalho pesado, clima ruim, assédio moral, produtividade baixa, clientes mal atendidos, entre outros fatores, porque quando o gestor que não está bem consigo mesmo acaba transferindo toda essa energia negativa para o ambiente onde ele está.
RH - O Sr. defende que deve existir um equilíbrio entre razão e emoção na atuação diária dos gestores. Isso realmente é possível?
Robson Santarém - Mas é claro que não só é possível como é uma exigência da própria vida. Nos últimos séculos o paradigma que nós adotamos fragmentou tudo e separou razão de emoção. Perdemos o sentido do todo e também a nossa identidade. O que é a vida afinal? Quem somos nós? Todo ser humano é chamado a viver a vida plenamente em todas as suas dimensões: física, mental, emocional e espiritual, e viver de maneira equilibrada. Este é um processo evolutivo que cada um de nós é chamado a viver. Não há dúvidas acerca da possibilidade de realizarmos este equilíbrio. Existem muitos homens e mulheres que são exemplos de seres humanos que deram certo como gente. Existem executivos brilhantes, que geram lucratividade e produtividade altas para as suas empresas porque sabem criar um espaço onde as pessoas orgulham-se de trabalhar e sentem que neste ambiente elas não só se realizam, mas contribuem para que a organização e a sociedade sejam melhores.
RH - Recentemente, o Sr. lançou o livro “(Auto)Liderança, Uma Jornada espiritual” baseando-se nos conceitos desenvolvidos por Carl G. Jung e nos ensinamentos da trajetória de Francisco de Assis. O que esses dois ícones possuem em comum, em relação ao tema liderança?
Robson Santarém - Parti do seguinte pressuposto: se liderar significa inspirar pelo exemplo do caráter, dos valores, o líder precisa ser antes de tudo um ser humano equilibrado, consciente de si mesmo. Digo que um excelente líder deve ser primeiro um excelente ser humano. Para se chegar a esse ponto é preciso, então, saber liderar a si mesmo antes de pretender liderar outras pessoas. Liderar a si mesmo requer autoconhecimento, controle emocional, consciência do sentido da vida, do propósito de estar no mundo, dos valores que dão sustentação para as ações, enfim, de percorrer um caminho ao qual Jung denominou processo de individuação. Isto significa a capacidade do individuo tornar-se si mesmo e não se deixar levar pelas convenções coletivas, pelos padrões sociais que o desviam da sua singularidade, mas desenvolver a sua própria história, fazer o seu próprio caminho. É um processo evolutivo no qual o individuo vai expandindo a consciência e desenvolvendo a sua personalidade de maneira íntegra e singular. Em minhas reflexões procurei identificar um exemplo de pessoa que tenha vivido este processo evolutivo - segundo o modelo junguiano - e seja reconhecido como líder. Francisco é uma pessoa que “deu certo” como ser humano, como gente. Ele passava credibilidade e liderava pelo exemplo.
RH - Os ensinamentos de Jung e o legado de Francisco de Assis complementam-se?
Robson Santarém - Jung em sua vastíssima obra, fruto de décadas de estudo e pesquisa sobre a natureza humana, contribui para que o indivíduo conheça-se melhor. Apenas para citar resumidamente, seus estudos demonstram a importância da expansão da consciência, de mergulhar não só no inconsciente pessoal, como no inconsciente coletivo e identificar os padrões de comportamento - arquétipos - que carregamos em nós e precisam ser analisados para que vivamos mais plenamente a nossa essência. Assim ele identificou a Persona - a máscara que usamos e que precisamos nos desvestir para reconhecermos quem somos de verdade, a Sombra, referindo-se aos conteúdos psíquico-emocionais reprimidos e que tantas vezes projetamos sobre os outros, causando problemas para nós e nossos relacionamentos; a Anima relacionada à força do feminino que todos carregamos: a ternura, o cuidado, a sensibilidade, a intuição, valores tão importantes para o nosso pleno desenvolvimento e realização - principalmente para os líderes; o arquétipo da Sabedoria que nos vincula à dimensão espiritual, entre outros.
RH - Que conselhos o Sr. daria a um gestor que sente a necessidade de mudar sua postura para gerir pessoas?
Robson Santarém - Se já sente a necessidade de mudar de postura, já deu um grande passo, porque é sinal que tomou consciência de muita coisa na vida. Acho que não é propriamente dar conselhos, mas apenas dizer: amigo, amiga, companheiros da jornada da vida, vamos nos abrir à possibilidade de nos tornarmos melhores como pessoas, vamos juntos - porque estamos todos juntos aqui fazendo uma mesma jornada de esperança, de conquistas, de luta, de superações. Vamos juntos nos esforçar com afinco, com disciplina, com destemor nesta busca de felicidade, de realização, não só para nós, mas para todos. Vamos nos conhecer mais e melhor! Vamos nos colocar a serviço dos outros. Vamos nos colocar a serviço da vida, do planeta. Quem sabe assim, poderemos dizer um dia que valeu a pena viver.
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